COMPARTILHANDO O DIREITO AO CONHECIMENTO NO TRATAMENTO DAS FERIDAS CRÔNICAS
Categoria: Coberturas & curativos
O profissional que trata feridas crônicas dos membros inferiores em pacientes com sofrimento psicobiológico deve atuar além do curativo: precisa reconhecer que dor, estresse, ansiedade, depressão, distúrbios do sono e baixa adesão podem manter a ferida em estado inflamatório e retardar a cicatrização.
Seu papel é integrar avaliação vascular, controle local da ferida, compressão ou offloading, manejo da dor e educação em saúde com escuta qualificada, identificação de barreiras emocionais e articulação multiprofissional.
Assim, o cuidado deixa de ser apenas técnico e passa a ser terapêutico, contínuo e centrado na pessoa, favorecendo adesão, segurança e reparação tecidual.
No tratamento das feridas crônicas, precisamos ir além da simples troca de curativos e coberturas.
A verdadeira transformação acontece quando compreendemos a biologia da cicatrização.
As MMPs (Metaloproteinases da Matriz) exercem papel fundamental no remodelamento tecidual, promovendo degradação controlada da matriz extracelular (MEC) para permitir reparo e renovação celular. Em equilíbrio, os TIMPs (Inibidores Teciduais das Metaloproteinases) regulam essa atividade enzimática.
Nas feridas crônicas, entretanto, esse sistema frequentemente se torna disfuncional.
O excesso de MMPs associado à insuficiente ação dos TIMPs leva à destruição contínua da MEC, degradação de colágeno, fatores de crescimento e tecido recém-formado. A ferida permanece presa em um estado inflamatório persistente, incapaz de evoluir adequadamente para as fases de proliferação e remodelamento.
Por isso, entender a dinâmica da MEC disfuncional não é apenas conhecimento acadêmico — é fundamento clínico para uma abordagem mais racional, estratégica e eficaz no tratamento de feridas.
Quem compreende esses mecanismos deixa de ser apenas um “trocador de curativos” e passa a atuar verdadeiramente na modulação biológica do processo cicatricial.
Compreender o microambiente da cicatrização e a Matriz Extracelular (MEC) não é apenas um exercício teórico, mas um diferencial clínico direto no manejo de feridas crônicas.
A MEC não é um elemento passivo: ela regula a migração celular, a angiogênese, a deposição de colágeno e a modulação inflamatória. Alterações na sua composição e organização estão no centro da cronificação das feridas.
Assim, o profissional que domina esses conceitos consegue interpretar melhor o leito da ferida, escolher coberturas de forma mais racional, indicar terapias adjuvantes com maior precisão e intervir de maneira direcionada nos obstáculos à cicatrização.
Em um cenário onde o tratamento de feridas exige cada vez mais abordagem personalizada e baseada em evidências, o conhecimento aprofundado da MEC se traduz em melhores desfechos clínicos, redução de tempo de cicatrização e maior qualidade de vida para o paciente.
É muito frequente o uso de sabão de coco para limpar feridas crônicas. É um hábito muito popular que vem de muitas gerações e que precisa ser eliminado em decorrência dos danos que pode provocar. Até mesmo profissionais de saúde desconhecem os prejuizos provocados por essa conduta.
É muito frequente o uso de sabão de coco para limpar feridas crônicas. É um hábito muito popular que vem de muitas gerações e que precisa ser eliminado em decorrência dos danos que pode provocar. Até mesmo profissionais de saúde desconhecem os prejuizos provocados por essa conduta.
Você sabia que o pH da ferida pode ser o grande vilão ou o maior aliado da cicatrização? Enquanto feridas agudas cicatrizam em ambiente levemente ácido (pH ~6.5), as feridas crônicas frequentemente ficam alcalinas – e isso atrasa tudo! Neste vídeo compartilho informações que considero relevantes a esse respeito.
‘A medicina se tornou refém dos interesses mercantis’, diz médico autor de livro sobre iatrogenia – Medscape – 26 de fevereiro de 2026.
O padrão é conhecido: check-ups progressivamente ampliados que geram achados irrelevantes, pacientes assintomáticos rotulados como doentes e cascatas diagnósticas sem desfecho clínico favorável. “Vivemos uma epidemia de iatrogenias decorrentes de atos médicos desnecessários, mas não há estudos específicos sobre o tema, porque esse problema se manifesta de muitas formas”, afirma o Dr. Guilherme Santiago, que é médico, professor e coordenador da residência no Hospital dos Servidores Públicos de Minas Gerais.
Gastroenterologista e hepatologista, ele vem observando há mais de três décadas um número crescente de protocolos e tecnologias diagnósticas que, em vez de servirem para o cuidado da saúde, atendem a pressões produtivistas e financeiras. Um incômodo que virou o livro Medicina excessiva: suas causas e seus impactos, publicado pela editora Labrador, e vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico de 2025. “É um manifesto de resistência.”
Na entrevista a seguir, o Dr. Guilherme comenta os fatores que o levaram a estudar o tema, descreve situações recorrentes de intervenções desnecessárias e discute caminhos possíveis para uma prática médica mais criteriosa e alinhada às necessidades dos pacientes.
Medscape: O que te levou a escrever o livro?
Dr. Guilherme: A percepção do quanto a medicina se tornou refém do tecnicismo e dos interesses mercantis, afastando-se de princípios éticos e filosóficos que sempre a nortearam. Ao longo da prática clínica, tornou-se evidente que decisões médicas passaram a ser fortemente influenciadas por protocolos automáticos, expectativas externas e pressões produtivistas, muitas vezes em detrimento do raciocínio clínico e da escuta.
O livro nasce desse incômodo e se propõe como um manifesto de resistência em defesa da medicina hipocrática, entendida não como um retorno nostálgico ao passado, mas como uma prática que reconhece limites, valoriza a reflexão e preserva a centralidade do paciente no cuidado.
Medscape: Em que contextos clínicos a medicina excessiva é mais evidente?
Dr. Guilherme: A situação mais emblemática é a dos check-ups aleatórios, progressivamente ampliados e desprovidos de sustentação científica. Esses exames, solicitados sem uma hipótese clínica clara, frequentemente revelam alterações irrelevantes do ponto de vista médico. Quando esses achados são supervalorizados, produzem ansiedade, rotulam indivíduos saudáveis como doentes e desencadeiam cascatas diagnósticas e terapêuticas que raramente trazem benefício real.
Esse processo é agravado pela limitação de tempo nas consultas. Ao compensar a pouca disponibilidade de atenção com pedidos de exames, o médico empobrece a relação com o paciente e passa a valorizar mais o fazer do que o pensar. A tecnologia ocupa o espaço que deveria ser da escuta, da semiologia e da construção cuidadosa do raciocínio clínico.
Medscape: Como diferenciar intervenções necessárias de condutas motivadas por excesso de precaução ou medicina defensiva?
Dr. Guilherme: Existe uma compreensão equivocada do que seja medicina defensiva. A verdadeira medicina defensiva se baseia em boa comunicação com o paciente e em decisões compartilhadas, sustentadas por raciocínio clínico sólido e evidências científicas consistentes. Quando o médico explica incertezas, discute riscos e benefícios e envolve o paciente no processo decisório, diminui a necessidade de intervenções motivadas apenas por medo ou proteção legal.
Nesse contexto, a observação e o acompanhamento do paciente também devem ser entendidos como condutas ativas. Embora a impaciência tenha se tornado regra, cabe ao médico expor o plano terapêutico com clareza, mesmo diante das incertezas quase sempre presentes. Trata-se de um exercício contínuo de comunicação e responsabilidade profissional.
Medscape: E como lidar com a demanda dos pacientes por exames e procedimentos?
Dr. Guilherme: A melhor forma de lidar com pacientes que chegam esperando exames ou prescrições é saber ouvir. É preciso demonstrar, com cuidado e com palavras, que o melhor médico não é aquele que solicita mais exames, mas o que oferece mais atenção. Quando o paciente se sente escutado e compreende o raciocínio clínico, a relação de confiança se fortalece.
Os princípios da slow medicine dialogam diretamente com essa abordagem. Uma medicina sóbria, respeitosa e justa é guiada por escuta, atenção, semiologia, raciocínio clínico, evidências científicas e comunicação. Exercida dessa forma, a medicina demanda menos recursos e resolve mais problemas, sem comprometer a qualidade da atenção.
Medscape: Quais são os impactos das práticas atuais na segurança do paciente?
Dr. Guilherme: Vivemos uma epidemia de iatrogenias, entendidas como danos à saúde decorrentes de atos médicos desnecessários. Isso é diferente das complicações associadas a intervenções bem indicadas, que são inerentes a qualquer procedimento, e também distinto do erro médico, caracterizado por imperícia, imprudência ou negligência.
Um princípio fundamental da medicina hipocrática tem sido desrespeitado cotidianamente: primum non nocere. Todo ato médico envolve risco e, na ausência de evidência concreta de benefício, a conduta mais prudente é evitá-lo.
Medscape: Como mudar esse panorama?
Dr. Guilherme: A medicina, em determinado momento, se divorciou da filosofia para se casar com a ciência, e esse matrimônio foi extremamente prolífico. No entanto, o tecnicismo dissociado de princípios filosóficos, especialmente quando impulsionado por propósitos mercantis, corrói a essência da profissão. Esse entendimento precisa ser trabalhado de forma permanente desde a formação médica.
Grande parte dos cursos de formação atuais se assemelha a formações técnicas, nas quais a dimensão filosófica da medicina é formalmente desprezada. É natural que os profissionais formados nesse contexto desenvolvam uma visão estreita e puramente tecnicista. Por isso, a educação dos jovens médicos é central. É preciso alertá-los de que medicina excessiva é má medicina e mostrar que boa prática se baseia em evidências, mas também em raciocínio clínico, senso crítico e cultura ampla.
Outra frente essencial é a sensibilização dos gestores, já que a lógica de produção acelerada é onerosa, improdutiva e insustentável. Além de adoecer pessoas saudáveis, a medicina excessiva adoece o próprio sistema de saúde. Mudar a forma de remuneração é um passo decisivo, com a incorporação de modelos de saúde baseada em valor, em substituição ao pagamento centrado apenas no volume de procedimentos.
Para médicos em qualquer estágio da carreira, a orientação é clara: não se conformar em ser apenas um autômato da linha de produção. A medicina carrega mais de dois milênios de história e exige uma postura ética, reflexiva e douta. Em um cenário cada vez mais marcado pela inteligência artificial, os diferenciais do médico serão, mais do que nunca, talentos essencialmente humanos, como atenção, escuta, raciocínio, empatia e compaixão.
Medscape: Que tipos de iatrogenia ocorrem por excesso de exames, medicamentos ou procedimentos em pacientes saudáveis?
Dr. Guilherme: A iatrogenia clínica pode ocorrer, por exemplo, quando se prescrevem estatinas para prevenção primária em pacientes sem fatores de risco cardiovascular, apenas para reduzir o colesterol. Até 10% desses pacientes podem apresentar efeitos colaterais relevantes.
Já a iatrogenia cirúrgica pode ser observada, por exemplo, na colecistectomia de pacientes assintomáticos, realizada apenas por achados de ultrassonografia de rotina. A remoção da vesícula pode alterar o fluxo biliar, impactar a microbiota intestinal e aumentar em cerca de 50% o risco de síndrome do intestino irritável.
Vale destacar que o termo “iatrogenia” é amplo e refere-se a qualquer efeito adverso gerado por intervenção médica. Movimentos internacionais, como o Choosing Wisely, buscam reduzir essas práticas, promovendo decisões médicas baseadas em evidências e mostrando o que não deve ser feito em pacientes saudáveis.
Samantha Cerquetani é jornalista especializada em saúde e ciência, com experiência na produção e edição de conteúdos sobre medicina, nutrição, bem-estar e saúde mental. Atua há mais de uma década na cobertura de temas ligados à saúde, colaborando com instituições, projetos editoriais e iniciativas do setor.
As feridas crônicas de etiologia venosa representam a grande maioria dos pacientes que nos procuram.
Com frequência nos deparamos com situações de pacientes que peregrinam em busca de alívio desse problema que deteriora a sua qualidade de vida.
Frequentemente o tratamento é focado apenas na ferida sem o enfrentamento das alterações fisiopatologicas que está na origem e manutenção dessas feridas.
Neste vídeo, exploramos os principais sinais e achados clínicos das úlceras venosas, incluindo localização típica, características morfológicas, presença de sinais cutâneos de hipertensão venosa.
Uma abordagem essencial para guiar o diagnóstico e um tratamento apropriado e eficaz.
Neste compartilhamento iniciamos a parte mais prática do documentação fotográfica no acompanhamento do tratamento das feridas crônicas. Aqui destacamos a importância do registro fotográfico por ocasião do primeiro atendimento. Muitas informações podem ser colhidas ao registrar esse momento que dará início à evolução do comportamento das feridas na linha do tempo em função das decisões terapêuticas aplicadas.. Destacamos também o caráter fundamental do documentação fotográfica da topografia da ferida. Há uma correlação fortemente estabelecida entre a ferida e sua localização anatômica. De forma que documentar esses momentos é de relevante importância na tomada ou modificação de condutas. A imagem fotográfica vai além do que podemos memorizar ao longo do tratamento.
Depois do vídeo que compartilhamos sobre a história da fotografia no contexta da saúde, tratamos agora dos elementos básicos que precisamos ter para levar a bom termo essa tarefa. Qual equipamento escolher, as questões mais elementares sobre iluminação do ambiente que possibilite a obtenção de fotos que possam realmente ser bem interpretadas, sem as terríveis sombras e reflexos que tornam impossível avaliar com credibilidade a lesão fotografada. Os recursos atuais tornam muito menos oneroso e mais fácil essa atividade. Se, por um lado, não aderimos à ideia de que as feridas possam ser tratadas conveniente apenas através das imagens online, por outro vemos com bons olhos a ajuda que as imagens podem significicar no acompanhamento daqules pacientes que já conhecemos presencialmente, cujas patologias de fundo estão sob nosso criterioso domínio. A fotografia como instrumento de documentação e acompanhamento deve ser parte do nosso arsenal. Cabe-nos conhecer bem esse recurso e saber utilizá-lo com sabedoria e bom senso.
O percentual de feridas crônicas que evoluem com edema decorrem de mau funcionamento do sistema venoso e do sistema linfático é muito elevado. A importância do entendimento da circulação linfática e do seu papel no equilíbrio dos líquidos que circulam em nosso corpo não pode ser desconhecida por quem se dedica ao tratamento das feridas crônicas. Como entender drenagem linfática e terapia compressiva sem conhecer a anatomia desse sistema e a dinâmica do seu funcionamente? Neste vídeo compartilhamos a estrutura anatômica básica do que podemos chamar de circulação linfática, desde sua origem nos capilares linfáticos até o seu deságue no sistema venoso.